Monday, June 30, 2014

Da diferença entre um estadista e um fedelho:


Decorria o ano de 1759 e estava-se em plena Guerra dos Sete Anos em que se afrontavam, entre outros, a França e a Inglaterra.

Portugal, sob o reinado de D. José, conseguia habilmente manter uma neutralidade, a que tentaram acolher-se alguns navios franceses no Algarve. Sem qualquer consideração a esquadra inglesa apresou-os e afundou-os.
Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal, reagiu nestes termos:

“ Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor


Rogo a V. Exa. Que me não faça lembrar as condescendências que o nosso Gabinete tem tido para com o seu. Elas são tais, que eu não sei se alguma Potência as haja tido semelhante para com outra. É justo que este ascendente acabe por uma vez, e que Portugal faça ver a toda a Europa que tem sacudido o jugo de uma dominação estrangeira. Portugal não pode provar isto melhor que obrigando o vosso Governo a dar-lhe uma satisfação, que por nenhum direito lhe deve negar. A França olharia para Portugal como para um Estado em fraqueza, se não pudesse obrigar-vos a dar razão da ofensa que lhe fizestes, vendo queimar defronte dos nossos portos, navios que deveriam ter ali toda a segurança.


Vós não fazieis ainda figura alguma na Europa, quando a nossa Potência era a mais respeitável. A vossa ilha não formava mais do que um ponto na Carta ao mesmo tempo que Portugal a enchia com o seu nome. Nós dominávamos a Ásia, África e América, quando vós domináveis sómente em uma ilha da Europa. A vossa Potência era do número daquelas que não podiam aspirar a mais do que à segunda ordem; e pelos meios que nós vos temos dado, a terdes elevado à primeira. Esta impotência física vos inabilitava para estenderdes os vossos domínios fora da vossa ilha; porque, para fazer conquistas, precisáveis dum grande exército; mas para ter um grande exército é necessário ter meios para lhe pagar, e vós não o tínheis. A moeda de contado vos faltava. Os que calcularam sobre as vossas riquezas, acharam que não tínheis com que sustentar seis regimentos. O mesmo mar, que pode olhar-se como vosso elemento, não vos oferecia maiores vantagens; com muito custo poderíeis apenas equipar vinte navios de guerra.

Há cincoenta anos, porém, a esta parte, tendes tirado de Portugal mais de mil e quinhentos milhões, soma enorme de que a História não fornece exemplo que nação alguma do mundo tenha enriquecido a outra de um modo semelhante. O modo de adquirirdes estes tesouros vos foi ainda mais vantajoso do que os tesouros mesmos. Pelas artes é que a Inglaterra consegui fazer-se senhora das nossas minas. Ela nos despeja regularmente todos os anos do seu produto. Passado um mês depois da chegada das nossas frotas do Brasil, não fica em Portugal uma só peça de oiro; tudo tem passado para aumentar a sua riqueza numerária. A maior parte dos pagamentos do Banco são feitos com o nosso oiro.

Por uma estupidez de que também não há exemplo na História Universal do mundo económico, nós vos demos a faculdade de nos vestirdes e de nos fornecerdes todos os objectos de luxo, que não é pouco considerável. Nós damos de que viver a quinhentos mil vassalos do rei Jorge; população esta que subsiste à nossa custa na capital da Inglaterra. Os vossos campos são quem nos sustenta. Vós substituístes os vossos trabalhos aos nossos; se antigamente vos fornecíamos o trigo, vós sois hoje quem no-lo fornece. Vós tendes roteado os vossos campos, nós deixamos os nossos em baldios.

Mas se vos temos elevado a esse ponto de grandeza, na nossa mão está o precipitar-vos no nada de que vos arrancámos. Nós podemos melhor passar sem vós, do que vós sem nós. Basta uma só lei para destruir a vossa Potência, ou pelo menos para enfraquecer o vosso Império. Não precisamos mais do que proibir, com pena de morte, a saída do nosso oiro, para ele não sair jamais. Talvez respondereis a isto que apesar da proibição, sairá mesmo do modo como sempre tem saído, porque os vossos navios de guerra têm o privilégio de não serem visitados na sua partida e em consequência do dito privilégio transportarão todo o nosso oiro; mas não vos enganeis com isto. Eu fiz romper vivo o duque de Aveiro por ter atentado contra a vida do rei, e poderei muito bem fazer enforcar um dos vossos capitães por ter roubado a sua efígie em desprezo da lei

Há tempos em que nas monarquias um só homem pode muito. Vós não ignorais que Cromwel, na qualidade de Protector da República inglesa, fez cortar a cabeça a Pantaleão de Sá, irmão de João Rodrigues de Sá, embaixador de Portugal na Inglaterra, por se ter prestado a um tumulto; e eu, sem ser Cromwel, estou em estado de imitar o seu exemplo na qualidade de Ministro Protector de Portugal.
Fazei, por tanto, o que deveis, se não quereis que eu faça o que posso. Que seria da Grã-Bretanha se por uma vez lhe cortasse este manancial das riquezas da América? Como pagaria à imensa tropa de terra e a grande armada do mar? Como daria ela ao seu soberano os meios de viver com o esplendor dum grande rei? Donde tiraria os grandes subsídios que paga às Potências estrangeiras para escorar e firmar a sua? Como viveria um milhão de vassalos ingleses, se se acabasse para sempre a mão de obra de que tiram o seu sustento? Em que estado de probreza não cairia todo o reino, se este único recurso lhe faltasse? Basta que Portugal regeite os seus grãos (quero dizer, o seu trigo), para que metade da Inglaterra morra de fome.

Direis que não muda com facilidade a ordem das coisas, e que um sistema há muito estabelecido não pode transtornar-se em um momento. Dizeis muito bem; mas eu direi ainda melhor. O rodar do tempo é que pode trazer esta reforma. Eu estabelecerei um plano preliminar de comércio, que se encaminhará ao mesmo objecto.

Há muito tempo que a França nos estende os braços para que recebamos as suas manufacturas de lã. Na nossa mão está aceitarmos as suas ofertas, o que sem dúvida aniquilará as vossas. A Berbéria, abundante de trigos, os fornece a melhor mercado que os vossos. Então vereis com a maior dor um dos principais ramos da vossa marinha ficar inteiramente extinto. Vós sois muito versados no Ministério, e não ignorais que isto é um viveiro de oficiais marinheiros de que a marinha real se serve em tempo de guerra; e com isto é que tendes elevado a vossa Potência.

A satisfação que vos pedimos é conforme ao direito das gentes. Todos os dias acontece haver oficiais do mar que, por zelo ou inconsideração, fazem aquilo que não devem. Ao Governo cumpre puni-los e fazer a reparação ao Estado que eles ofenderam. Todos sabem que semelhantes reparações o não tornam desprezível. A nação que se presta ao que é justo, adquire a melhor opinião; e da opinião é que depende sempre a potência do Estado. 



"Roubada" na íntegra aqui.

Tuesday, June 17, 2014

Fotoblog Normandia - La Cambe, German Cemitery

"Freuet Euch Aber Dass Eure Namen Im Himmel Geshrieben Sind"
Numa tradução de quem não percebe nada de Alemão, "Regozigem-se, porque os vossos nomes estão escritos no céu". Escrito assim mesmo na porta do armário que tem os livros dos nomes dos mortos ali sepultados.
A entrada em La Cambe é o oposto da entrada de Omaha. Cabe uma pessoa, e mal. Não nos faz sentir confortáveis, não nos traz a paz dos sítios amplos - e contudo, é amplo. Há árvores entre as campas, há sombras sobre as campas, sombras de árvores. Há um domo central, uma sepultura comum de... sinceramente não me recordo de quantos soldados ali estão sepultados. No cimo, uma estátua com uma grande cruz negra, vulcânica, sobre as figuras do Pai e da Mãe - a Família que que perdeu quem aqui está.
As campas são rasas, apenas uma placa simples rectangular ou cruciforme. Em cada placa, dois nomes. Nas placas dos soldados desconhecidos, "Ein deutscher soldat", "Zwei  deutsche soldat", "Vier deutsche soldat", "Fünf deutsche soldat". Não há cruzes nas campas, as cruzes aparecem "desgarradas", cinco a cinco como os dedos de uma mão, em rocha vulcânica negra, nunca ao lado nem sobre as campas. Vinte e um mil, duzentos e vinte e dois corpos, a idade média entre os dezoito e os vinte e dois anos. 
Há fotos (poucas e plastificadas) de homens morridos há setenta anos, ainda nas suas fardas da wehrmacht Alemã ou das SS Nazis (a diferença era pouca, mas havia uma diferença). Cruzes a identificar corpos que deixaram de ser "ein deutscher soldat" e voltaram a ter nome e história. Os que não têm nome, não forçosamente porque ninguém quisesse saber deles, são o expoente do que se passou naqueles dias: à grande maioria corresponde uma família que desapareceu por completo até ao fim da guerra.
Não associar aquelas campas a um sentimento de paz, de repouso eterno. Não consigo imaginar algo ali ao lado que não seja o inferno. O inferno ali é uma tristeza enorme, profunda e infinita, que se sente sempre e em todo o lado a partir do momento em que se atravessa a entrada estreita.
Quando entramos em La Cambe, não nos podemos esquecer da guerra que matou aqueles homens, não nos podemos esquecer da Alemanha em que nasceram, e não nos podemos esquecer que, por paradoxal que nos pareça o contraponto com os crimes nazis, aquela Alemanha era feita na sua grande maioria de pessoas crentes.
O epitáfio, que é também o genius loci daquele lugar, é demolidor e revelador da dimensão da loucura daqueles dias. É também o símbolo da capacidade de avançar, de reconstruir e de ultrapassar o que tem que ser ultrapassado, mas nunca esquecido:

"With its melancholy rigour, it is a graveyard for soldiers not all of whom had chosen either the cause or the fight. They too have found rest in our soil of France."


E resta-me um pensamento triste: aqueles homens, considerados criminosos por metade da humanidade, têm na morte um tratamento mais honroso do que os nossos mortos no ultramar. Diz muito da nossa dimensão - ou da nossa pequenez.




































Thursday, June 12, 2014

Fotoblog Normandia - Pointe du Hoc

Há setenta anos este lugar foi bombardeado. Violentamente bombardeado, leia-se. Era uma zona estratégica, com linha de tiro directa para as praias de Omaha e Utah. Setenta anos depois, está assim. Atente-se na resiliência da construcção. Por outro lado, dá o que pensar do terror que foi estar aqui no dia 4 de Junho de 1944 - o bombardeamento aqui antecedeu os desembarques em dois dias. Todas estas crateras têm setenta anos, setenta anos de chuva e lama, e estão assim. Imagino como estariam há setenta anos, ou melhor, não imagino, tal como não imagino o que deu origem a isto. É apenas mais um detalhe do horror.