Tuesday, October 19, 2010

Só aqui uma opiniãozinha do je, baseada em coisíssima nenhuma de jeito.

Ouvimos demasiadas vezes falar em PME's - e mais recentemente em micro-empresas - como componentes estruturantes do nosso tecido produtivo, blá blá blá blá... E traduzindo as coisas em miúdos, o que é isto afinal de contas? Bem, são os cafés, os restaurantes, a mercearia da esquina, a loja de roupa, a sapataria, o stand do fundo da rua, aquela oficina onde trabalham quatro gajos, mais a outra ao lado onde só mudam pneus, é a tabacaria e a loja da fruta que também vende bilhas de gás. Mas é também a estação de serviço "familiar", a empresa de transportes que tem quatro carrinhas, a empresa de mudanças, um ou outro alfaiate, um ou outro sapateiro, etc etc etc. Falta aqui muita gente. E trata-se de um universo absolutamente fascinante: são pessoas (diga-se o que se disser) empreendedoras. É verdade, empreendedoras. É muito difícil ter um qualquer negócio neste País, são pessoas empreendedoras. Ok, pronto. Fogem ao fisco ou o fisco é que foge delas? Basta pensarmos em muitos negócios perdidos por esse País fora, em que a mercearia/drogaria/café é a totalidade da zona comercial da paróquia e até há alguns anos era o sítio onde se ia buscar o correio e onde havia o único telefone num raio de dez quilómetros.Inspectores das finanças, nicles. Nem GNR, e atrevo-me a dizer, nem sequer a ASAE. Como sói dizer-se, é melhor que não tomemos a parte pelo todo.
Há uma função social única neste tipo de empresas. Não há economias de escala, regra geral a própria geografia não o permite. Nem o tipo de povoamento. Mas geram riqueza, por parca que seja, e criam emprego. Dão expressão e visibilidade ao trabalho. E continuam a ser hoje em dia, mesmo nos meios mais populosos, o sustento dos mais idosos, dos mais necessitados, aqueles que não têm autonomia para viajar entre centros comerciais e hipermercados onde sé se chega de pópó. Continuam a ser a mercearia da esquina, a padaria, o talho, a peixaria, a drogaria de bairro onde se encontra aquela anilha de borracha que não se vende em mais lado nenhum - e vão continuando, alguns para lá da morte de quem lhes abriu a porta pela primeira vez, de pai para filho. São aqueles negócios demasiado pequenos para serem atractivos às malhas do poder, demasiado numerosos para serem controláveis, demasiado complexos para "valerem a pena". Porque, na realidade, acabam por dar um trabalho danado.
Bem, vem isto tudo para dizer o quê? Nada de especial. Apenas que o mundo "empresarial" é um reflexo nítido da nossa sociedade. Do melhor e do pior que conseguimos ser. E revela que regra geral somos trabalhadores, empreendedores, esforçados e dedicados - até que um dia uma entidade chamada "Estado" descobre que existimos. Somos suficientemente "limitados" relativamente a essa mesma entidade e aos madraços que a encarnam para não conseguimos passar além das imposições cretinas que nos fazem. Inclui - enquanto povo - não conseguirmos olhar snão de baixo para cima, numa perspectiva a um tempo servil, filial e de fidelidade canina.
O nosso problema está seguramente naqueles que escolhemos - ou que deixámos que escolhessem por nós.

No comments: