Thursday, December 23, 2010

Natal?

Reza a lenda que Jesus Cristo seria um Homem Bom, Santificado à nascença, gerado sem pecado, predestinado à Salvação do Homem e à expiação das culpas alheias. Tenho para mim que ele era na realidade um incendiário, mas essa é apenas a minha opinião. Mas gostaria de fazer aqui um pequeno exercício de realismo: tentemos separar o homem do Deus, reduzindo-o ao seu expoente máximo enquanto Ser Humano. E enquadrá-lo na época em que viveu. Parece-me uma análise fascinante, e vou partilhar apenas algumas (poucas) coisas que sei, embrulhadas em extrapolações e opiniões. Nada de científico, portanto. Nada "estático". Nada definitivo.
Crê-se que nasceu "em trânsito" - o equivalente de hoje seria nascer na área de serviço de Pombal a caminho da Alfredo da Costa porque o gajo da ambulância teve que parar para fazer um xixi. Crê-se que nasceu num palheiro "misto" - havia lá um burro, uma vaca e um número indeterminado de ovelhas e outra bixeza quadrúpede. Estranheza completa foi a visita dos três Reis, mais carregadas do simbolismo das oferendas e da veneração profética do que de veracidade. Mas já antes do nascimento a coisa tinha ares de não ser de todo normal. O Pai, José, subiu ao panteão como São José, descrito na cartilha como Pai exemplar, parece que não era assim tão Pai quanto isso. Não se trata da história da Virgem e da Pomba - o que em si nos remeteria para práticas pouco recomendáveis; é que o homem seu Pai, José, era já bastante velho quando Jesus nasceu, bastante mais velho do que a Mãe, Maria; e a dúvida da sua capacidade reprodutiva era tal (o Espírito Santo incarnado em Pomba foi uma figura bíblica feliz) que o latim Eucarístico medieval se lhe referia como "Pater Putativo" - logo abreviado para "Pepe" nas catolicíssimas províncias de Leão e Castela. Passada nos dias de hoje toda esta história nos remeteria para (no mínimo) muita estranheza. Mas os tempos eram outros, e a História se encarregou de vestir a história com as alvas vestes da pureza e da castidade de uma pomba. E siga. Porque o rapaz (ainda infante e de seu nome só Jesus - o "Cristo" veio mais tarde na cruz) se encarregou de ser "apanhado" no meio dos "doutores" - a discutir a doutrina do que hoje chamaríamos de Teologia. Com que bases? Não sebemos. E pouco se sabe do que fez até chegar aos trinta anos de idade. Teria irmãos e irmãs? Seguramente, a economia familiar assim o obrigava naqueles dias. Casou? Tinha filhos? Quase de certeza que sim. Só um homem "completo", com provas dadas na vida familiar poderia fazer o que fez nos últimos três anos de vida. E do que se tratou, afinal? Ser ouvido, ser escutado, ser seguido.
"Só" conseguiu moldar o pensamento da Europa nos dois mil anos seguintes. Foi um revolucionário, foi um incendiário, foi políticamente incorrecto em toda a extensão do termo. Fez uma revolução de mentalidades quando se esperava que fizesse uma revolução política. Não expulsou Roma da Judeia; conquistou todo o Império Romano com as idéias que pregou. Provou à exaustão que a palavra é a arma mais eficaz em tempo de guerra. Foi convincente ao ponto de muitos dos seus seguidores terem dado a vida a mortes atrozes por essas mesmas idéias. Não terá sido a primeira vez na História, mas à escala que foi, foi a mais significativa - ainda hoje o é. O que defendeu foi a mais elaborada doutrina de engenharia social, de longe muito mais elaborada do que o comunismo, o fascismo o capitalismo ou qualquer outro "ismo" aplicável. Provou ter um conhecimento profundo da psicologia humana, individual ou colectivamente. Não forçava - convencia. Tinha a noção exacta da proporcionalidade do certo e do errado. E o episódio em que se fez mártir pelas suas crenças fez dele um homem acima dos outros homens para os homens do seu tempo. Fez dele um líder e um exemplo - daqueles exemplos a seguir.
A lenda e a conveniência de cada momento deturparam em quase tudo a essência da mensagem que quis deixar, mas deram-lhe uma dimensão que provavelmente nunca quis ter. E deixaram aos seus seguidores um império na terra que nunca reclamou como seu. Em seu nome (e nunca em nome do que defendia) praticaram-se algumas das piores barbáries que a humanidade já concebeu. Contudo, o legado que deixou foi tão forte que quem veio a seguir fez do símbolo de uma das mortes mais atrozes - a que lhe destinaram - o seu próprio símbolo de esperança e de salvação, retorcendo ao limite do improvável a imagem da repressão e da imposição da lei romana que a cruz tinha em todo o império.
E se tivesse aparecido na Terra na época actual?
Fazendo uma leitura transversal dos actos que praticou transpostos para a actualidade, eis algumas das coisas de que poderia ser acusado à luz da nossa lei:
Incentivo à desordem pública e organização ilegal de manifestações, participação em actividades subversivas, distribuição de bens alimentares não certificados e pão com teor de sal não controlado (no milagre da multiplicação dos pães e nas bodas de canaã), circulação na via pública em animal quadrúpede sem a devida autorização (quando entrou em Jerusalém montado num burro), incentivo ao vandalismo e à destruição do bem público (quando a população lhe fez a recepção em Jerusalém com folhas de palmeira), consumo e incentivo ao consumo ilegal de substâncias psicotrópicas (claro, claro, andou sobre as águas... sim sim) e prática ilegal de medicina (nos diversos milagres que praticou, incluindo a ressurreição de Lázaro).
Ou seja, na melhor das hipóteses estaria preso ou internado num hospício.


É o nascimento deste homem que vamos celebrar amanhã à noite.

4 comments:

Margarida said...

...e depois a 'criativa' sou eu..; piqueno, como é que consegues tanta genialidade?!
Amei.
Xi-coração.

Axle said...

"Reza a lenda que seria um Homem Bom"... eu não vejo razões para duvidar de que fosse. É uma opinião pessoal... creio que o mais que lhe podemos apontar é que, basicamente, se esperou demasiado dele: essa coisa do estar predestinado à salvação do Homem e à expiação das culpas alheias, convenhamos, era uma missão demasiado ambiciosa para as suas capacidades... e convém não esquecer que o seu superior hierárquico, que lhe sobreviveu e que já teve muito mais mandatos, também tarda em revelar mais capacidade do que ele para levar a bom termo este empreendimento. Não há visão estratégica, não há uma política de comunicação eficaz, claramente o sistema de incentivos não está ajustado à realidade nem sequer está convenientemente indexado ao desempenho global do projecto. Como é que querem que os colaboradores acreditem nos objectivos estabelecidos se há largas centenas de anos que não se ouve uma mensagem séria da administração que mostre o seu envolvimento pessoal no projecto? Um sinal que seja, observável, de preferência... tipo... a eliminação instantânea das epidemias e da fome em África... consta que a administração tem meios para o fazer, se quiser. Mas não... ocasionalmente lembram-se de enviar uma senhora para dizer uns segredos a uns pastorinhos ou coisa assim... é simpático, mas não resolve nada... safaram-se da sova que iam levar por terem chegado tarde a casa, mas continuaram com fome e a história serviu para pouco mais do que justificar a construção de mais infraestruturas megalómanas. Aquilo a que fomos assistindo, com o passar dos séculos, foi a uma série pouco feliz e nada transparente de nomeações (a dele é apenas um caso) para o cargo de administrador executivo, que só denotam a incoerência e a falta de rumo que desde sempre minam as acções do corpo dirigente, nomeações essas que só podem ter por detrás motivos de simpatia política, já que o mérito não parece ser determinante. Eu próprio já trabalhei em ambientes muito semelhantes... fala-se muito sem se dizer nada, vende-se a imagem de que fizemos tudo muito bem mas no ano que vem ainda vamos fazer melhor, tentamos convencer toda a gente de que o cliente nos adora quando sabemos não ser verdade... e de vez em quando reestrutura-se qualquer coisa de forma a manter tudo como estava... Adiante... Claro que o resultado está à vista, quem é moldado à imagem de um modelo de gestão ou de um gestor/líder (nós, supostamente), acaba por padecer dos mesmos problemas. O que me anima é que já vão havendo fóruns internos (um ou outro blog por aí) em que estes temas são debatidos e confrontados com toda a espécie de argumentos retorcidos... é um método de teste de hipóteses por redução ao total absurdo... há esperança, portanto.

Axle said...

Anda lá, meu, escreve lá sobre o Ano Novo... qu'é para eu responder...

Niagara said...

Margarida, nada ao lado do que o jovem companheiro amigo palhaço deixou aqui... :)

Axle, é já a seguir. Haja um minuto ou dois.