Sunday, February 27, 2011

Agriões.

Hoje deu-me para este lado. Acordei torto. E andava há uma série de tempo para escrever sobre o assunto.
Vamos à raíz da coisa. Quantas pessoas vivem realmente em Lisboa? Quero dizer, fora dos bairros sociais, vá (a Alta não se qualifica, apesar de ter um ou dois condomínios fechados, tudo aquilo é um bairro social, sejamos realistas). Lisboa, Lx, quantas pessoas? Pouquíssimas, admitamos. Um par de dúzias, vá. Alfacinhas de gema, vestígios. Esses venderam os anéis e os dedos e foram para a periferia. A Cidade é pouco amiga de quem lá vive. Mas dá-se bem com malta de Odivelas, da Amadora, da Buraca, de Sacavém e da Bobadela, de Caxias e alguns quantos de Vale de Milhaços de Belverde e da Quinta da Princesa. A malta rasca, mas aqueles mesmo rascas (como eu) andam de transportes, estou só a falar dos que andam de pópó. E é uma pipa de gente. Voltava eu hoje do trabalhito (lá está, é para o PIB, Engenhêro) e... a ponte 25 de Abril atascadinha de latas, a praça das portagens atascadinha de latas, a A2 atascadinha de latas até ali aos Foros, e a EN378 atascadinha até ao fim de Fernão Ferro. 
E para onde ia toda esta boa gente, disposta a prescindir de um bom par de horas (na melhor das hipóteses) antes de se sentir mínimamente perto de casa, depois de um assalto à mão armada nas portagens para terminar um dia solarengo bem passado na província (na companhia da sogra, leia-se)? Bem, iam para Lisboa. "diz que" voltavam para casa. Mas, bem feitas as contas, em Lisboa há muito pouca gente. Há muito poucos alfacinhas, mesmo contando com as importações - e os modelos importados mais "radicais" ficam-se ali pelo eixo Cais-do-Sodré/Linha Verde aos fins-de-semana. Logo, esta malta vai no sentido de Lisboa mas é só para disfarçar porque não vivem lá - não são alfacinhas, mas sim agriões suburbanos, vindos em magotes lá dos arrabaldes onde vivem e que ficam invariavelmente  para lá de onde judas perdeu as botas para passar um dia de sol e qualidade de vida no trânsito. Autênticos agriões suburbanos sim, malta que gosta de viver apinhada em prédios onde o vizinho do décimo-frente-frente tem todas as razões para se queixar dos traques do vizinho do segundo esquerdo-frente porque os consegue cheirar com um delay de menos de três segundos em relação ao som - e  como tal, decidem todos ir passar os fins de semana e as férias aos mesmos sítios porque estão sempre em cima do acontecimento que é a vida dos outros agriões lá da paróquia. Inclusivamente têm o hábito de ir passar a lua-de-mel aos mesmos sítios (pelas mesmas razões): Cancún, Punta Cana, Salvador e Jericoacoara (para os mais esclarecidos). Depois trocam fotos uns com os outros e falam da malta amiga que conheceram por lá, e que deve estar fartinha dos besuntas que lhes aparecem vindos deste lado do oceano. Um agrião prestigiado tem sempre tantos vizinhos que pode viver no mesmo prédio desde os vinte anos até à idade da reforma sem nunca ter sido administrador do condomínio. Típicamente perde mais tempo de vida à procura de lugar para estacionar a lata à porta de casa do que nas três horas diárias que passa no trânsito, com a excepção do fim-de-semana em que os valores duplicam.
Este agrião suburbano, senhoras e senhores, gasta no seu pópó (que é só dele) o que não quis gastar na casa onde mora toda a família, mas se a qualidade do pópó fosse directamente proporcional à qualidade do agrião que se senta atrás do volante, em vez de um automóvel teríamos apenas um tapete com rodinhas de skate. 

1 comment:

Kawamura said...

Eixo Cais do Sodré/Linha Verde?? Então e o menino esqueceu-se de Campo de Ourique, Campolide e da Avenida da Igreja??? Niagara mau :P!

Agora a sério, subescrevo na totalidade. Agriões em tapetes com rodinhas de skate :)