Thursday, February 10, 2011

Da geração rasca para a geração parva:

Amigos:
Nada disto é uma qualquer amostra de ensinamento; são apenas constatações.
A vida é dura, mas é assim mesmo. A geração rasca - ainda que não saiba muito bem onde começa e onde acaba, mas sei que é a minha geração, a geração que andava nas faculdades lá pelo início da década de 90 - ainda o foi aprendendo. Fui às primeiras manifestações contra as propinas porque não concebia um establecimento de ensino superior onde os alunos tivessem que custear o material das aulas práticas e onde os volumes mais recentes da biblioteca datavam da década de 70. Não fui às últimas, caríssimos, porque se o pessoal tinha dinheiro para ir de pópó para a faculdade/universidade/instituto superior coiso (que era o meu caso), se calhar as coisas não eram exactamente o que pareciam. Porque na tal geração rasca - e à rasca - que eu conheci, íamos em bando a pé desde o apeadeiro do combóio até para trás de onde judas perdeu as botas, em magote, para poupar um módulo da Carris. Não íamos de pópó, íamos de transportes porque éramos uns tesos, apesar de ser longe como tudo e sempre a subir. O dinheiro nem sempre sobrava para o almoço na cantina-maravilha (prato principal: bife à "James Bond" - leia-se "frio, duro e com nervos de aço"), depois das fotocópias e das sebentas. Os manuais técnicos (típicamente da Mcgraw-Hill) vinham em Inglês porque eram bastante mais baratos do que a versão Brasileira. E a malta aproveitava as férias de verão para trabalhar, para ganhar uns cobres para sustentar os vícios e as extravagâncias ao longo dos outros onze meses do ano. E atenção que nada disto pretende ser lírico ao ponto de dizer que nessa altura é que era bom. Era uma merda. Cheguei a ficar duas horas à espera de combóio (obrigado CP pelos horários maravilhosos), cheguei a vir pendurado em quem já vinha pendurado na porta em dias de greve, passei muitos dias a almoçar depois das 16, a aguentar o dia só com o pequeno almoço (e estava a pé desde as 6). Mas vamos lá a deixar de tretas. Não passei fome, foi uma opção minha - porque tive que aprender a optar e a fazer escolhas. Tal como optei por não acabar o curso, porque comecei a trabalhar e não quis estudar só para ter um canudo que não me serviria para nada cá fora - a não ser para levar com o prefixo Eng. a estragar o nome. Foi uma decisão minha, foi um risco que decidi correr. E hoje tenho a minha vida, boa ou má mas é óptima porque é a minha e porque não devo nada a ninguém. O que não signifique que não esteja agradecido a umas quantas pessoas com que me cruzei ao longo dos anos ou com as quais tenho partilhado alguns dos anos.

Há uma diferença grande entre o que era a norma e o que é a norma. Hoje é mais fácil usufruir de recursos que não conseguimos sustentar. Vive-se a vida a crédito, nem que seja dos pais. Não me vão dizer que o gajo que tem um A3 ou um Golf aos 18 anos ganha para sustentar o pópó. Também não me vão dizer que um adolescente ganha para comprar telemóveis de 500 érios todos os anos. Se calhar a questão começa por saber quanto custa andar na moda hoje em dia, entre marcas de carros, de roupas, de calçado, de gadgets e outros acessórios e sem esquecer os restaurantes, bares e discotecas da moda. Pois. É tudo, não é? A merda toda é aprender a sustentar isto depois de nos termos habituado a não viver sem isto. E já não é só o Carlos que faz isso porque os pais são cheios "da nota" e ele está no Instituto "Estância de Férias" Superior de qualquer coisa a tirar um canudo de Dr.  em coisa nenhuma porque está garantido no negócio do pai; agora todos querem ter o carro do Carlos, a casa do Carlos, o telemóvel do Carlos, andar vestidos como o Carlos e fazer a vida que o Carlos faz, mas... Não são o Carlos. Temos pena mas é assim.
E já agora uma outra questão assim daquelas que não interessa a ninguém. Quando eu andava a estudar, o tasco tinha cinco cursos de Engenharia (Civil, Máquinas, Química, Electrotécnica e Electrónica). E era um Politécnico. Agora parece que tem uns trinta e muitos cursos. Não faço idéia da mais-valia que constituam, mas... E isto para chegar ao cerne da questão: "Olá, eu sou o Alberto, tirei uma licenciatura em ornitologia e um Mestrado no vôo do abelharuco de dente-de-sabre. Não consigo arranjar emprego e não percebo porque é que ninguém me quer empregar".
Alberto: o teu problema é que há quinhentos gajos com o mesmo curso que tu e com o mesmo mestrado que tu fizeste. Desses quinhentos há dois que estão empregados: um na Câmara Municipal de Alguidares de Baixo - porque o pai é o Presidente lá do burgo e meteu uma cunha para o rebento ir para lá - e um outro que foi para Espanha e está a trabalhar num Parque Natural. Mas esse gajo queria mesmo aquele curso e aquele mestrado por vocação. Os outros 499 foram para o que era mais fácil. Um safou-se porque tinha uma cunha, os outros não. E o problema dos "Albertos" que acham que estão a ser prejudicados por quem é "efectivo" é que um dia, se puderem fazem bem pior.

Pá... Lamentamos mas a vida não é fácil. Alguns de nós aprendem essa parte antes. O que me impressiona é a quantidade dos que chegam à idade de se fazerem gente e ainda não descobriram isso. E eu pergunto-me: que capacidade tem uma alminha que acha que o mundo lhe deve tudo para chefiar/coordenar/liderar uma equipa? Seja em que tarefa for? No entanto foi para isso que tiraram o "canudo", certo?

Algo está muito errado aqui.

3 comments:

Kawamura said...

Li (devorei) e adorei. Os pregos todos nos is, sim senhor. E sim, tens razão, algo está muito errado... Abraços.

Niagara said...

:)
Eu nem gosto dos Deolinda por aí além...

Capitão Merda said...

Ah pois!
Eu, com 12 anos de idade, já fazia (à mão) e acarretava massa para os trolhas!
Isto a propósito de fazer pela vida sem chular os "cotas".

Sempre odiei - e odeio - leituras obrigatórias.

Isto vem algo a despropósito, mas enfim...