Wednesday, February 9, 2011

Um País fora de série governado por um bando de #$%&"# dá nisto:


Duas a três vezes por mês, repete a rotina, tal como as suas colegas da Câmara de Almeida: ir a Fuentes de Onoro encher o depósito do carro, comprar gás e artigos de mercearia. "Se eu pudesse, até a luz comprava em Espanha", afirma Vanda Albuquerque. Somados todos os cêntimos, garante que estas viagens representam uma poupança anual na economia doméstica próxima dos €1000.
Do lado português, no caminho para Vilar Formoso, o dono do posto de combustível IDA fica a vê-las passar. "Aqui só vendo algum gasóleo agrícola e abasteço os carros do grémio e dos bombeiros. Se tiver sorte, para alguém para meter €5 de gasolina, só para chegar à fronteira", lamenta Domingos Amaral, que já desistiu de vender gás e teve de fechar o café.
No posto da Galp em Fuentes de Onoro, o movimento de carros de matrícula portuguesa é constante. Ligada ao supermercado e ao restaurante Gildo, a marca petrolífera lusa apresenta empregados portugueses e preços "à espanhola", como comentam os condutores, incapazes de compreender como é que se paga aqui €1,209 por litro de gasolina, quando no posto seguinte da Galp junto à Guarda custa €1,509.
Ir ao talho a 'Valencita'
Mais a sul, em Villanueva del Fresno, as alentejanas Maria Bugalho e a filha Olga carregam o carro com sacos de compras. "O que a gente leva é tudo marca nossa, portuguesa, e aqui é mais barato, como é que pode ser?", interroga-se Maria, que leva paletes de leite gordo Vigor a 49 cêntimos o litro "que lá custa 80", ou meio quilo de café Camelo a €2,99 "que lá compro a €4,75". Em Reguengos de Monsaraz, onde vivem, são muitos os que vêm aqui fazer compras. "Valha-me Deus, tem de ser. Frango, champôs, detergentes, é tudo mais barato. O IVA lá está tão alto, e os ordenados uma miséria".
O dono do supermercado Curro constata que o afluxo de portugueses se acentuou com os últimos aumentos de IVA. "Está a vir muita gente de Portugal, asseguram 60% das nossas vendas", adianta Francisco Ríos Farias. "Antigamente, vinham cá comprar produtos de elite, caramelos ou chocolate Cola Cao. Agora fazem as compras gerais, levam açúcar, leite e papel higiénico".
Aos sábados, Villanueva del Fresno enche-se de portugueses e a bomba Repsol é paragem obrigatória. "Vêm também muito mudar pneus e baterias", assegura o dono, Javier Montero.
O talho de Florencio Linares, na pequena aldeia Valencia del Mombuey - "Valencita", como dizem os habitantes de Amareleja ou Barrancos, que lá vão regularmente -, é famoso em quase Portugal inteiro. "Trabalho muito com a indústria, só hoje recebi 50 chamadas de Portugal", garante Florencio. Os portugueses compram ali "agora de tudo, do caro ao barato", desde entrecosto a €1 o quilo a presuntos belota, tudo de porco preto.
O afluxo de portugueses é a justificação económica da bomba de 'Valencita', cujo negócio vai de vento em popa. "Procuramos ter um produto português, da Galp, para os portugueses o aceitarem. Aqui o gás custa €13, lá é quase €26, mas é o mesmo", salienta o dono, José Nunez.
Senhor Serafim vai de Viana a Tui
Na fronteira Valença-Tui, as autoridades galegas admitem que passam ali perto de 150 mil viaturas por mês, para compras, lazer ou trabalho. A maioria vai ao gás e aos combustíveis.
A jovem que atende no pequeno posto de gasolina do outlet Center Fashion, em Tui, não tem mãos a medir. As matrículas portuguesas dominam, mas os galegos também gostam de fazer o desvio por causa do preço, quatro cêntimos mais barato (€1,225 a gasolina, €1,176 o gasóleo). "Sim, é frequente os portugueses encherem bidões. Às vezes, são três ou quatro", refere.
Na mala do seu Opel Corsa, o senhor Serafim acomoda duas botijas de gás e dois bidões de gasolina, depois de atestar o depósito com 42 litros. Acompanhado da esposa, todos os meses cumpre este ritual. O reforço da dose em 20 litros nos bidões tem uma explicação prosaica: "Somos de Viana do Castelo, não podemos andar a correr para cá muitas vezes". No raio até Caminha, é compensador encher o depósito na Galiza, mas Viana já fica a 100 km. O senhor Serafim não sabe ao certo quanto poupou, mas as contas são fáceis: €36, somando a economia obtida nas botijas (€19) e na gasolina (€17).
No parque de estacionamento do hipermercado Haley, um em cada dez carros é português. "Os portugueses atacam mais ao fim de semana", diz a operadora de caixa. O casal Benjamim e Natércia Fernandes são clientes regulares e acabaram de gastar perto de €40, estimando em €10 a poupança induzida.
"Óleo, detergentes, produtos de limpeza e higiene são muito mais baratos", sustenta Natércia. "Além do IVA inferior, aqui têm sempre muitas promoções. Mas noto que os preços deste lado também levaram uma puxada", diz Benjamim. O casal prefere comprar parte dos produtos no Lidl em Valença pois as cadeias de distribuição dos dois lados da fronteira praticam preços muito aproximados.
Os bombeiros de Valença fizeram as contas aos combustíveis e concluíram que podem poupar €30 mil por ano com o contrato que celebraram com um posto galego da Shell. Mas nem sempre o combustível é mais barato em Espanha, e um caso emblemático é o posto do Intermarché em Valença, onde o gasóleo está a €1,199, valor inferior ao da generalidade dos postos espanhóis (€1,216).
Também no Algarve, rumar a Espanha é habitual. Ao chegar a Ayamonte, não é preciso esperar muito para ver chegar portugueses, a abrir a bagageira e carregar botijas de gás - algo que a lei não permite mas a que a necessidade obriga.
Anabela Cunha, que trabalha em Portugal mas escolheu viver em Ayamonte por causa do preço das casas, afirma que serão milhares de pessoas a fazê-lo, apesar de arriscarem a multa. "Toda a gente carrega gás de Espanha, até os GNR fazem isso para consumo próprio", afiança.
Lúcia Silva, que costuma ir de Quarteira a Espanha fazer compras numa base quinzenal, não compreende como o Governo português pode ser tão rígido na política fiscal. "Eu faço-o como forma de protesto, porque o Estado pensa nisto de forma muito vertical e não no impacto indireto que tem na economia", defende. "As pessoas pensam que lá é tudo mais barato por causa do IVA, e por arrastamento acabam por comprar coisas que até nem são, enquanto por cá há gente a ir para o desemprego e milhares de litros de combustível que não se vendem".
O IVA a 18%, contra 23% em Portugal, contribui para a ideia de que os preços são sempre melhores em Espanha. "Nas marcas tradicionais sim, mas hoje em dia com as marcas brancas em Portugal, acho que já não compensa", considera Anabela Cunha.
Assiste-se agora ao fluxo inverso: os espanhóis a invadirem lentamente os supermercados portugueses junto à fronteira. "Sim, nós aqui encontramos produtos mais baratos", confirma Josefa Mora, que veio com as filhas de Lepe, a 20 km, ao Pingo Doce de Vila Real de Santo António. "Dizem que a fruta é muy buena e as berduras muy bonitas", graceja Maurício, o empregado de frescos. "Eu era pequeno e já eles vinham cá, lembro-me das espanholas cheias de sacos, que vinham comprar lençóis, e ouvir nas ruas: Sábanas, sábanas!". Esses tempos acabaram, mas o comércio transfronteiriço em busca de melhores preços de ambos os lados do Guadiana, esse está para durar.
Portugal perde €1000 milhões
Entre "postos de trabalho diretos e indiretos, Portugal perdeu 20 mil empregos e deixou de arrecadar €1000 milhões". Este é o balanço feito pelo vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustível (ANAREC), António Amaral, relativo ao efeito da deslocalização dos abastecimentos de combustível para Espanha. "Fecharam 400 postos de abastecimento localizados perto da fronteira em Portugal, porque os consumidores nacionais passaram a abastecer-se de combustíveis em Espanha - onde compram gasóleo, gasolina e gás engarrafado -, poupando assim muito dinheiro por mês", refere António Amaral.

"Um agregado familiar de cinco pessoas que gaste quatro botijas de gás por mês poupa mais de €50 mensais se comprar as botijas em Espanha", acrescenta. É que uma 'bilha' de gás custa cerca de €26 em Portugal quando em Espanha ronda os €13. As diferenças de preços no litro de gasóleo rondam os 17 cêntimos a menos em Espanha e a gasolina custa menos 26 cêntimos por litro. "Perdemos receitas fiscais em IVA e em imposto sobre produtos petrolíferos, além de perdermos negócios de consumo paralelos e postos de trabalho indiretos nas áreas de manutenção, limpeza, segurança, informática, e todas as áreas que deixam de operar quando é encerrado um posto de abastecimento", diz o vice-presidente da ANAREC.

"Isto é caricato, porque Portugal quer instalar portagens nas SCUT para arrecadar uma receita de €300 milhões, mas depois, devido a uma estratégia fiscal desastrosa nos combustíveis, acaba por perder os €1000 milhões que são deslocalizados para Espanha, o que é três vezes mais que a receita pretendida com as portagens nas SCUT", comenta o vice-presidente da ANAREC. O poder de compra espanhol é cerca de 25% superior ao português. Segundo os últimos dados do Eurostat, enquanto o produto interno bruto (PIB) per capita em Portugal representava 80% da média da União Europeia em 2009, Espanha estava acima da média com 103%. Embora com um IVA inferior e preços de vários bens abaixo dos portugueses, a economia espanhola tem um nível de preços ligeiramente superior.

Os preços de bens como alimentos, bebidas ou tabaco em Portugal representam 92% da média europeia, num ranking liderado pela Dinamarca, e em Espanha estão em 97%. Uma diferença menor que a distância que separa o nível de remunerações nos dois países vizinhos. O salário bruto médio em Portugal ronda os €1200 (números de 2006, últimos disponíveis do Eurostat), ao passo que em Espanha está nos €1600.

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