Friday, November 25, 2011

Mas é isto?

Fico mesmo na dúvida. Ontem dediquei-me a perder o meu precioso tempo a fazer zapping entre a Sic Notícias, a TVI 24, a RTPN e os generalistas, à cata de informação. Depois de ter passado o dia a cumprir os serviços mínimos a quem me paga o ordenado, claro, porque há coisas que não podem parar. E já lá vou ao resto, mas entretanto fico-me pelo que vi. E o que vi explica muito daquilo que é o nosso País. Talvez até explique o porquê de estarmos a ser governados pela tal de Troika.
Vi uma quantidade respeitável de gente, de pessoas respeitáveis, a discutir quase na exclusividade os números da greve. Faltou dizer os nomes de quem fez greve e de quem não fez. E sinceramente, se o objectivo era fazer uma guerrinha de números, não precisavam de fazer uma greve geral, bastava terem restringido a coisa aos transportes, o resultado teria sido quase o mesmo (adicionavam-se aos grevistas as pessoas que não conseguiriam de qualquer modo chegar ao local de trabalho e a greve era um estrondo). Não me parece que uma greve sirva para isto, é absolutamente redutor tratar o exercício de um direito de cidadania a este nível. E que os governos o façam, é normal, mas os sindicatos têm o dever de ir por outra via. Absolutamente decepcionante.
A manifestação e as perturbações em frente à AR foram absolutamente escusadas. Primeiro porque aos agentes da PSP não é permitido fazer greve, e sabe-se lá quantos dos que ali estavam teriam preferido fazer greve; segundo, porque são pessoas, trabalhadores e empregados (quase) como quaisquer outros (com menos direitos, inclusivé), e por usarem uma farda não têm que perder automáticamente o respeito dos manifestantes, bem pelo contrário; e terceiro, tal como já referi no post anterior, para quem entende mínimamente a dinâmica dos grupos, aquilo que se viu ontem foi obra de uma mão-cheia de arruaceiros, politizados ou não, que pretendiam a adesão popular a uma iniciativa absolutamente idiota - e eram uma mão-cheia apenas, e a não adesão dos restantes manifestantes foi tão evidente que foram rechaçados ainda antes da chegada do corpo de intervenção. Seja como for, a iniciativa foi lamentável, mas perfeitamente compreensível após ouvir o tempo de antena proporcionado a uns quantos dos envolvidos. 
E em relação às greves no geral, quer-me cá parecer que esta gente não percebe mesmo nada do que anda a fazer. Primeiro, porque promovem, aceitam, toleram (escolher o mais correcto) greves parciais quando calha: greves parciais na CP, greves parciais no Metro, plenários na Soflusa e na Transtejo sempre que calha. E depois, quando marcam uma greve geral, é para um dia!!! E claro, já andamos todos fartos da malta da CP e do Metro... Conseguimos estar todos no mesmo barco?
Amiguinhos, greves gerais de UM DIA são como um jogo de futebol: no fim gastam o tempo a fazer a estatística da greve, como se viu. Se quiserem ser sérios e fazer uma coisa a sério, façam o seguinte:
a) almofada financeira (é sempre a economia a falar, no fim de contas): empreguem os euritos que têm amealhados no mais elementar sentido de justiça, que é estarem preparados para suportar (ou ajudar a suportar) FINANCEIRAMENTE os dias de greve a quem a faz;
b) marcar uma greve geral, com garantias de paralisação total, para pelo menos três dias. Eu diria mesmo quatro. Mínimo. É a única maneira de garantir que a greve faz mossa. E uma greve que não faça mossa não passa de uma palhaçada.
c) tenham a certeza das razões pelas quais convocam a greve. Marcar uma greve porque sim, por causa de tudo o que mexa e mais um par de botas (que inclui a problemática das manchas solares) é absolutamente demagógico. De tanta abrangência acaba por não abranger coisa nenhuma. Um dos maiores problemas que temos é a Justiça, que é também um direito de cidadania e um dever exclusivo do Estado - alguém quer convocar uma greve de protesto contra o péssimo funcionamento da Justiça? Alguém quer convocar uma greve geral contra as PPP's e todos os esquemas de captura dos dinheiros dos contribuintes (que somos todos nós) por meia-dúzia de corporações e/ou indivíduos? Alguém quer convocar uma greve geral pelos 5.000.000.000 de Euros (mínimo) que o BPN custa aos nossos bolsos? É que assim de repente, só o BPN custa a cada Português 500 Euros! E a EDP e o Plano Nacional de Barragens, esse fiasco que vai custar uns 1700 a cada Português, e ao qual acresce o preço da Electricidade mais elevado da UE? E a Galp? queremos convocar uma greve geral contra a Galp, que tem a exclusividade da refinação para o mercado nacional? Porque neste momento temos dos combustíveis mais caros da UE, antes e depois de impostos!


Vamos continuar?
Podemos continuar?


E que tal em vez de uma greve geral, meter o Estado em Tribunal por ser tão lesto a taxar os rendimentos do trabalho e a não taxar outros rendimentos? Alguém quer marcar uma greve geral porque queremos ver efectivamente punidos os tipos que nos arrastaram para onde hoje estamos?


Não?
Então temos pena.



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