Thursday, December 8, 2011

A galinha e o ovo:

O Deputado João Galamba escreveu uma crónica no DN com o título "O governador do Banco de Portugal não tem razão". Merece a pena a leitura, e merece a pena assistir ao vídeo para (tentar) contextualizar a questão. Merece também a pena ouvir as declarações do mesmo deputado acerca da independência do governador no desempenho das suas funções, em linha com o último parágrafo da crónica.
Colocam-se aqui algumas questões interessantíssimas: na crónica do DN encontro umas quantas falha graves que derivam directamente do facto de a análise ser feita no abstracto, e não no contexto em que os factos se deram.  Parte de princípios interessantíssimos, mas difícilmente defensáveis: a dívida pública de um país  não tem uma ponderação de risco zero (senão o rating dos bancos não descia com a descida do rating do país, em função da exposição destes à dívida soberana daquele) e não são os rácios de capital que estão aqui em causa, é a percepção dos mercados relativamente à capacidade de endividamento de toda a banca de um país que limita a quantidade de crédito que lhe concedem. Isto indicia uma coisa: o crédito não só não é ilimitado, mas - tal como referiu o governador do banco de portugal - é escasso. Principalmente para países como Portugal, pelo facto de que a economia débil e fortemente terciarizada difícilmente sustenta elevados montantes de dívida. A não ser que não haja preocupações com o montante dos juros a pagar.
Mais: parece-me de todo interessantíssimo o paradoxo de assumir o crédito como ilimitado e em simultâneo reconhecer que, no mundo real, o BCE passou a ser o financiador (quase) exclusivo dos bancos - que contraem com este empréstimos de curto prazo, com taxas de juro comparativamente mais elevadas do que as dos créditos de longo prazo concedidos pelos mesmos bancos e que este financiamento vem suportar. Isto não é o caminho das pedras, é a descapitalização, mas sou eu a falar...
O facto que me faz mais confusão em tudo isto é a acusação de falta de independência que o deputado (do PS) faz ao governador (nomeado pelo PS). Esquecendo-se seguramente daquela grande referência de isenção, independência e competência que foi o antecessor Vítor Constâncio, que se deu ao trabalho de deixar que a instituição a que presidia se substituísse ao INE como fiscal e avalizador do défice do governo anterior a pedido de um primeiro-ministro do PS. Se é esta a bitola, estamos conversados.

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