Thursday, February 23, 2012

O caminho das pedras

Estive a ler um post de um dos (muitos) blogs que sigo no reader, neste caso o "The Left-handed cyclist" (o link aponta para o post, post esse que não tem absolutamente nada a ver com bicicletas, antes com biomecânica, neste caso restrita a um pequeno grupo de dinossauros). E relativamente a estes (os raptors, como são incorrectamente conhecidos), há uma coisa que não deixa de me fazer alguma confusão: sabendo que a grande maioria das "originalidades" que a natureza cria tem apenas uma função sexual secundária (o caranguejo-violinista macho é um dos exemplos extremos de que me lembro assim de repente), porque raio vamos dar uma volta aos quintos dos infernos para elaborar uma teoria rebuscadíssima que pretende explicar duas ou três características evolucionárias peculiares da maneira mais complicada possível? Sim é verdade, parece-me que aquela garra poderia ter uma qualquer função no ritual de acasalamento, e a particularidade do encaixe semi-rígido das vértebras da cauda poder-se-ia explicar muito fácilmente com uma coisa em que estes animais seriam comprovadamente soberbos: a corrida. Com efeito, parece-me que esta cauda em particular seria o contrapeso ideal para uma corrida veloz e perfeitamente controlada, em que a compensação de equilíbrio se faz muito mais no plano horizontal do que no plano vertical, possibilitando mudanças rápidas de direcção sem o ónus de controlar a posição horizontal da cauda ao longo de todo o seu comprimento.
Que me recorde, os únicos animais bípedes existentes que utilizam as patas traseiras como arma são os galos e os cangurus (os machos, leia-se). Sempre em lutas com outros machos, por domínio territorial ou conquista de fémeas. No caso do canguru a cauda ajuda (e de que maneira) a técnica de luta, mas se fosse semi-rígida como a dos raptors descritos não serviria para nada. E não me parece que uma presa em luta pela vida se colocasse voluntáriamente na posição mais favorável ao seu predador com o intuíto de o ajudar... Ou seja, aquela garra teria seguramente uma outra função não muito clara, mas não me parece que a estrutura óssea e muscular subjacente suportassem os esforços necessários à sua utilização eficaz como uma arma - e ainda por cima daquele tamanho.
Por outro lado, os raptors poderiam ter um comportamento relativamente a presas de maiores dimensões muito mais racional e eficiente do ponto de vista do custo energético, e idêntico ao dos canídeos actuais: perseguição de fundo, em grupo, desgaste, exaustão por cansaço e/ou perda de sangue. E face a uma presa semi-morta de cansaço, os dentes seriam sempre uma arma muito mais eficaz do que as garras para terminar o serviço - a grande maioria dos felinos serve-se das garras para segurar ou para se agarrar às presas, mas não as matam com as garras. Ou pelo menos raramente o fazem.
O facto de nenhum esqueleto ter sido encontrado com a dita garra leva-me a ponderar uma possibilidade: a de ser um elemento provisório, com uma composição menos durável do que a dos ossos, razão pela qual nenhum exemplar fossilizou (um pouco como a armação dos alces ou dos veados, que apenas cresce na época do acasalamento e cai todos os anos). O que reforça a minha idéia de que pudesse ter uma outra função que não a de inflingir danos às presas.
Por fim, as aves, que acreditamos ser as descendentes em linhagem directa destes mesmos dinossauros, são os seres mais consistentemente exuberantes do planeta no que concerne à decoração da plumagem e aos comportamentos que exibem durante a época do acasalamento, porque razão consideramos os seus antepassados como cinzentões apagados, apenas interessados em carnificinas? Não me parece de todo...

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