Tuesday, May 28, 2013

INFERNO

Beja é uma cidade insuspeita, mesmo quando é cenário de um almoço de antigos combatentes. Voltaram de Angola há cinquenta anos - o tempo passa mesmo depressa, não tarda muito é Abril a fazer o meio século, e ainda assim continua sob o manto diáfano da obscuridade.
Cinquenta anos depois, nenhum deles é jovem. Alguns não se viam há mais de quarenta anos, alguns salvaram as vidas dos camaradas, outros ampararam outros tantos no último suspiro. E só ali se compreende que são necessários dois anos de guerra, é preciso viver-se dois anos na guerra para se criarem estes laços de amizade impossíveis entre pessoas improváveis. Todos eles filhos da mesma Pátria - ali não há qualquer receio de dizer a palavra de peito feito, nem de mostrar a estranheza pela falta de respeito pela bandeira ou pelo desconhecimento do hino. Unidos pela guerra, uma guerra que nenhum deles considera injusta - lutavam pela Pátria em solo pátrio, porque o Ultramar era Portugal. Sentia-se a amargura nas palavras contra um poder político que não lhes reconhece o valor, que os abandonou, que os traiu. Eles foram para lá para dar as vidas - estavam dispostos a isso, e não foram pagos na mesma moeda.
Entre todos vão relembrando um pouco de tudo, amigos a falar de conhecidos que já se finaram, da vida que cada um fez, de quem não está porque não pôde vir. Há emoção genuína no ar, há ali homens que beberam a água do Bengo - e ainda assim regressaram, talvez porque a guerra tivesse continuado.

Há que enquadrar os homens na época: foram os primeiros a ser enviados para Angola, para um mundo que desconheciam, vindos do interior do Portugal "profundo" - à data muito mais profundo do que hoje. Foram desbravar terreno para uma guerra não convencional para a qual não estavam preparados, foram lutar contra uma cultura à qual eram quase completamente alheios. O tapete vermelho de boas vindas estava ensopado no sangue dos agricultores chacinados no norte com requintes de crueldade, e estavam formatados para ver aquela realidade à luz do preconceito da superioridade racial, moral e religiosa. E da revolta contra a barbárie dos "turras".

Talvez por isso mesmo a guerra tenha durado tantos anos - mais por inépcia de algumas das altas patentes do que por falta de controlo da situação no terreno. Talvez por isso tenha havido um 25 de Abril, mas isso é um talvez que não tem outra resposta fora da realidade. Talvez por isso mesmo homens insuspeitos - já com filhos e netos e um coração de avô, grande do tamanho do mundo - falavam com a maior naturalidade de quando tinham morto vinte e sete pretos que os atacaram no próprio acampamento - era matar ou morrer, entende? -  e estavam mesmo a ver que não se safavam daquela. Eram como os macacos a sair das árvores, e não os podíamos deixar entrar senão estávamos tramados, vê? Porque depois começávamos a disparar sobre os nossos, e isso não podia ser. E depois? Depois foi uma trabalheira, porque cavámos uma vala demasiado pequena e eles não cabiam lá, tivemos que os esquartejar.





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