Friday, April 29, 2011

Paris

Paris revelou-se uma cidade deveras interessante, onde um dos seus símbolos máximos tem um pequeno (grande) espaço de homenagem ao seu criador


Que mantém vivos os sinais e os símbolos de um passado não tão recente quanto isso



E onde se percebe fácilmente que a diferença entre um criminoso sanguinário e um grande Imperador reside acima de tudo no ponto de vista (ou do lado da barricada em que nos encontramos)






A História nem sempre se escreveu na ponta das baionetas. Por vezes foi com um traço mais grosso.










Podia ser outra cidade qualquer?
Podia, mas não era a mesma coisa.

Thursday, April 28, 2011

Miss chuveiro

Fui só eu a achar que o Ferro Rodrigues devia ter continuado na OCDE em vez de se vir cuspir para o nosso espaço hertziano?

Upgrade: OSS.

Após diversas experiências e tentativas frustradas, prescindi de vez do sistema de direcção original, culpa de uma falha grave de projecto. Na realidade o sistema de rolamentos que utilizei não era de todo funcional, e após alguns minutos de utilização começava a apresentar folgas que o tornavam de todo impraticável. Para já, e dada a falta de uma boa idéia para resolver o problema, decidi pelo upgrade menos óbvio: montar um guiador (mais ou menos) tradicional. E ficou assim, como testemunham as fotos. Mais ou menos na mesma, mas com uma "volumetria" algo diferente. Deixou de ser "one of a kind" aqui na paróquia dado que o Frederico tem uma igual parecida. Mantém-se tudo o que disse: a manobrabilidade é a de uma escrivaninha Luís XIV com rodas, tem o peso de um piano de cauda e é linda como o Shrek. Mas é um espectáculo. Quer estrada, quer papar milhas, quer rolar. E mantenho tudo o que disse em relação ao conforto. Absolutamente fantástico.


A escolha do conjunto de rodas 20"/26" não foi casual: o objectivo era ter a pedaleira ao nível (aproximado) do assento. Pareceu-me um bom compromisso entre manter uma área frontal não muito grande sem contudo correr o risco de terminar com uma geometria desconfortável - o que acabaria seguramente por remeter este magnífico exemplar para a prateleira das coisas não utilizaveis. 




O assento foi roubado à irmã mais velha (agora defunta) e recauchutado. Está ligeiramente menor, mais leve e bastante mais robusto - duas placas de contraplacado de 5mm entremeadas com duas camadas de fibra de vidro, com mais duas camadas de fibra de vidro e duas de fibra de carbono em cada uma das faces. O objectivo era não necessitar de apoios adicionais na zona do encosto, estando apenas preso ao quadro por dois parafusos de 6mm. O tubo do guiador foi dobrado à mão e soldado a título mais ou menos definitivo, os acabamentos  nesta zona para já não estão ao nível do resto. Quando comecei este projecto ainda não tinha uma idéia definitiva para o sistema de direcção, pelo que decidi ser um nadinha mais tradicional e aumentar o ângulo do eixo de direcção, não se fosse dar o caso de precisar de um guiador mais tradicional.



Os componentes são todos standard e "roubados" ao BTT: com uma bicicleta tão pesada pareceu-me razoável optar (pelo menos numa fase inicial) por um conjunto que permitisse enfrentar as subidas com alguma confiança. 



Estou a aprender a "pilotar" a bichinha, não é de todo pacífico - a geometria da direcção e o recuo do guiador são autênticos desafios a quem quer contrariar a lei da gravidade naquelas duas rodas... O equilíbrio a baixas velocidades ainda é complicadote, e para não passar demasiadas vergonhas, a auto-aprendizagem tem sido feita após o lusco-fusco, mais ou menos aqui por perto da porta de casa - até porque ainda não tem luzes. 
Extras: tem protecção de corrente (o verde-mangueira não engana: foi mesmo feita a partir de um metro de mangueira de jardim), um guarda-lamas traseiro - falta o dianteiro, fica para um destes dias (a ver), já tem a plataforma e os alforges, que abençoadamente estão providos de reflectores... tudo afinado ao melhor que consegui, tudo a funcionar. Estou a tratar do "motor". E de uns cabos que consigam ir do guiador ao travão traseiro - e pior, ao desviador, para não ficarem como estão actualmente, a fazerem um atalho entre o guiador e o quadro.
Um outro dado importante: tal como aparece nas fotos, pesa 14,5 Kg. Surpreendente, pensei que seria um pouco mais - uns 3 ou 4 Kg a mais.

Sunday, April 24, 2011

Paris Eiffel

Fui recomendado por quem conhecia. A bem dizer, apenas uma alminha me disse que não tinha gostado da cidade. E fui. E à chegada, Paris não é uma cidade assim tão impressionante, principalmente quando aterramos no Charles de Gaulle e percorremos o subúrbio - bastante banal, por sinal - para entrar na dita cidade. Bem, à luz do fim da tarde a Cidade-Luz não é ofuscante por aí além. Ainda para mais porque o tempo estava Londrinamente farrusco. Já estava portanto o je a tirar medidas  ao alguidar para avaliar o tamanho da banhada que ia levar, dado que até ali NÃO era diferente de nenhuma das (muito poucas) Cidades que conheço quando... a noite caiu - ou caiu a noite. E foi mais ou menos assim que a vi pela primeira vez: Distante e sem termo de comparação.


Ao longo do caminho, do Champ de Mars, foi surgindo assim. E a esta distãncia percebe-se a beleza e a elegância, mas ainda nada mais. Dá assim a modos que ares de um farol folclórico plantado no meio da cidade, e vamoláver...


E a caminho do indo lá ver, cada vez mais se percebe algo que não é exactamente evidente no início do percurso: aquele tal farol folclórico - acreditem, se fosse em Amsterdam teriam feito passar um farol folclórico por uma torre Eiffel, uma estátua da Liberdade ou pela grande muralha desde que isso desse dinheiro - e daí a minha observação anterior, mas dizia eu, aquele farol folclórico não é nada disso nem de perto nem de longe, a perspectiva engana, toda a perspectiva engana, a noite e o céu enganam, aquilo é um embuste montado à distância, porque quanto mais nos aproximamos mais esmagadora se torna:


E paradoxalmente sem perder a elegância da forma. Estou perante um monumento que não tem qualquer utilizade prática, não passa de uma pilha de metal erguido ao ego do homem, e contudo... E contudo é inigualável. E quanto mais nos aproximamos mais tudo aquilo se torna impressionante.


Seguramente haverão umas quinhentas mil fotos da torre, tiradas do pilar ponto cardeal X com esta mesma perspectiva. Tenho pena que não consiga apanhar tudo o que vi ali. Mas fica na mesma:



E aqui chegados (apetece dizer "Senhoras e Senhores"), cai a ficha. Não há hipótese alguma: Isto, em si, é absolutamente incomparável, é único, é feito de um molde que foi partido à nascença. Seguramente o expoente máximo da construcção em treliça de ferro, seguramente esmagador, seguramente incomparável. E correndo o risco de parecer um pacóvio encandeado pelo barulho das luzes, só me lembro da imagem de ver pássaros (pombos, muito provavelmente) a passarem por ali, debaixo do arco, por cima de mim. Não tenho nenhuma imagem que transmita melhor o que senti: ali voam pássaros, ali por baixo, mesmo ali em cima de nós. 


E o que se pode dizer quando se está ali? Quase nada, efectivamente. Não interessam os "Qué frô" que tentam vender réplicas da torre de todos os tamanhos e feitios, enfeitadas como árvores de natal ou (sóbriamente?) douradas a imitar o original; não interessam os transeuntes que deambulam, os quinhentos turistas que por ali andam a tirar fotografias, nem sequer incomodam muito os soldados que andam aos três de automática em punho por entre a multidão: o que interessa ali não se passa ao nível do solo - está lá em cima, não interessa que não se passe nada, o que se passa passa-se lá em cima.


Nada está ali ao acaso: Não há nada demais nem nada de menos. A "abóboda" não fecha acima do arco na primeira plataforma, fecha na segunda. A treliça abre para deixar passar a luz e o vento e fecha-se para nos limitar o alcance dos sentidos, mas sempre muito longe, muito lá em cima.


 



Talvez seja só eu, mas há algo de absolutamente fascinante nesta torre. É toda uma Cidade que se encerra aqui (percebi-o mais tarde quando saí a pé para calcorrear o resto), é algo que tenho dificuldade em descrever. Mas para tudo o resto encontro sempre um termo de comparação, a Batalha, os Jerónimos, Mafra, há sempre algo que (salvaguardadas as devidas diferenças) me surgiu como termo de comparação a quase tudo o que vi. Menos para a torre. A Torre. Percebe-se porque não a quiseram destruir. E também se percebe o orgulho que têm em a terem construído.





Viagens:

Tenho algures umas fotos para largar aqui pelo pasquim. Mais daqui a um bocado...

Thursday, April 21, 2011

Actualidades:

Pedro Silva Pereira, o ex-Ministro daquela pasta de que não me lembro, aquele açude de conhecimentos tácitos, aquela sequóia exemplo de rectidão, o paladino da transparência e do bom relacionamento constitucional, aquele verdadeiro alguidar repositório de boas práticas, arengou novamente às massas. Fala exactamente como o seu mentor, o Engenheiro. Até mete medo. Nem se percebe bem o que diz.
Parece que o PS está à frente nas sondagens. Este PS, que aclamou em quase unanimidade o Engenheiro, que dá valor a personagens telenovelísticas como o ex-Ministro que fala como o Engenheiro arrisca a vir a fazer parte - mais uma vez - do Governo do País.
Alguém está apostado em que eu emigre, só pode...

In-cre-du-li-da-de:

Isto veio da boca do gajo que queria fazer do Campo Pequeno um Circo ao estilo romano, com areia empapada do sangue dos fascistas. E pode querer dizer uma de várias coisas: a) bateu com a cabeça e ainda não foi diagnosticado, b) com a idade veio-lhe alguma utilidade ao conteúdo do crâneo, c) esteve em Marte desde 1974, d) outra coisa qualquer, z) ponham-se a pau porque ainda há por aí muita G3 escondida.

Tuesday, April 12, 2011

Perdoem-me a vulgaridade...

Estava a ver o arquivo morto do blog... e constatei que o tão gabado Clube das Virgens... Fodeu-se.

Independentes:

Estes dois homens são "Independentes". Ambos com uma carreira profissional meritória, um na AMI, o outro como Professor. Ambos com ligações políticas, um a um partido de centro-direita e o outro a um partido de centro-esquerda. Um derrotado nas pretéritas eleições Presidenciais, o outro ex-ministro das Finanças do governo demissionário - pelas razões mais do que óbvias.
Adivinhem lá qual deles está farto de levar na corneta.

NÃO! É o outro pá!



...


"A Terra é Azul"


Ficou para a História o nome do Homem, muito para além do fim do regime que apenas quis dele que fosse um símbolo. Iuri Alekseievitch Gagarin foi um Cosmonauta e o primeiro homem no espaço.
Planeta Terra, 12 de Abril de 1961, a bordo da Vostok I.

And now, Ladies and Gentlemen...

Something completely different. Vamos chamar-lhe... Não sei bem o que lhe possa chamar, mas a designação correcta é (do Inglês)... Long Wheel Base recumbent byke (LWB). Mais: Under Seat Stearing (USS). A primeira designação vem não do comprimento (2,4 mts) mas do facto de ter o eixo da direcção à frente da pedaleira. A segunda designação vem do guiador, localizado exactamente por baixo do assento - não é um selim, é um assento mesmo. No Brasil traduz-se "recumbent" para "reclinada". Não sei se o termo será o mais correcto, assumo que sim... A dificuldade deve-se a um facto simples: esta é muito provável e possívelmente a primeira do género feita em Portugal. Tanto quanto sei, claro. Isto não é um concurso, é apenas para dar uma idéia da singularidade da coisa. Tal como esta aqui - uma SWB (Short Wheel Base), Over Seat Steering (OSS) - porque tem o guiador acima do assento, e também qualificada de High Racer (o High entendo, o racer...)...terá sido eventualmente pioneira em Portugal, ao passo que aqui, uma coisinha conhecida como Tadpole Trike (duas rodas à frente, por oposição aos que têm duas rodas atrás, designados por Delta Trikes não foi de todo a primeira a nascer cá na terrinha. Ainda assim num País em que a bicicleta não tem de todo a relevância que merece, os números destes exemplares (únicos) são tão diminutos que fazem deles seres absolutamente exóticos e dignos de de nota. 

O facto de já ter construído/modificado outros exemplares antes foi uma mais-valia inestimável - quer no processo de fabrico, quer na percepção atempada dos pontos fracos do projecto. Não tem um ar "profissional", mas eu também não sou profissional do ramo... A mim serve-me para já. Os materiais utilizados... uma bicicleta do género das bike tour (canibalizadíssima) e tubo de aço de secção quadrada de 35 mm com paredes de 1 mm. Ainda não sei o peso, mas andará seguramente mais próximo dos 20Kg do que dos 10 Kg. Um dia com mais tempo faço um descritivo mais detalhado.

A razão pela qual quis construir esta menina: a) o resultado das experiencias anteriores não me convenceu, e b) esta foi exactamente a primeira bicicleta que quis construir - mas depois acabei por me decidir por algo mais complexo... em relação ao ponto a) senti-me algo insatisfeito quanto aos resultados práticos: o trike era demasiado baixo para andar com segurança nas estradas, a outra bicicleta que tinha canibalizado era demasiado alta para ser confortável nos arranques (principalmente em subida). Ou seja, necessitava de algo intermédio, e surgiu isto.

Após algumas voltinhas pela vizinhança, ficam-me as segintes sensações:
-Pode vir a ser uma coisinha muuuuito rápida. Apesar do peso sim, afinal tem a vantagem da aerodinâmica - mas como dizem os americanos, nestas coisas "miles come before speed".;
-Não é por aí além de manobrável. Muito comprida, assemelha-se mais a um camião articulado com reboque... creio que se desenrascará bastante bem em estradões de terra batida e trilhos largos, mas o elemento natural desta bixinha continua a ser o asfalto;
-Apesar de ainda necessitar de algumas afinações - nomeadamente corrente e travões, a sensação que transmite é a de uma travagem bastante firme, muito controlada e eficaz. Em grande parte - diria eu - por causa do relativamente baixo centro de gravidade. 
-Top gun: é brutalmente confortável. Quando digo confortável não estou a falar em termos comparativos com uma bicicleta de cidade com um selim monstruoso artilhado com gel, estou a falar de uma poltrona com rodas. Esse é o termo da comparação. É uma poltrona com rodas.

Em relação ao sistema de direcção, revelou-se muito eficaz, muito directo e muitíssimo confortável. É para isso que serve, aliás... o guiador debaixo do assento: para ser muitíssimo confortável.
Ficam duas singelas fotos. Dá para ter uma idéia do que estou a falar.





Em estado bruto:

Tem dias, mas por vezes a natureza fica assim por aqui... a máquina não é grande coisa, mas as imagens estão em bruto: foi assim que vi, foi assim que ficou porque foi assim que foi. Mas mesmo com muito boa vontade, as fotos não conseguem de todo fazer jus à realidade.




Monday, April 11, 2011

combate à acefalia galopante:

O número a reter: quatro.
Quatro.
Quaaaatro.
Meus amigos, pensemos no quatro. 
O PEC chumbado foi o quarto. Não foi o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro - foi o quarto. Porque todos os anteriores falharam, apesar de várias alminhas jurarem sobre as campas das respectivas mamãs defuntas que não seriam necessárias mais medidas. Porque o orçamento de 2011 foi uma fraude, porque assumia um cenário irrealista. E ao fim de 3 PECs ranhosos e um orçamento merdoso vêm dizer que o chumbo do PEC IV foi o responsável por deixar o País à "mercê" do FMI???? Mais ou menos como o gajo que bebeu 5 litros de vinho e comeu uma azeitona, e vomitou porque a azeitona estava estragada?
Meus amigos congressistas: ide-vos todos foder - quem tem que pagar esta merda somos nós, e já é mau o suficiente sem estarmos a ser gozados.

A minha pergunta por responder:

Financiamento, financiamento, financiamento, financiamento. Financiamento para despesas correntes, financiamento para despesas supérfluas, financiamento para gastos sumptuários, financiamento para obras faraónicas, financiamento e mais financiamento. Eu pergunto: este País é viável? Sobrevive sem financiamento? 
Senão, mais vale fechar a porta. 

Portugal Feat. I.M.F.

Thursday, April 7, 2011

O meu sincero e sentido "muito obrigado"

a este Senhor, pela verve, pela lucidez, pela imparcialidade e pelas capacidades divinatórias que lhe permitiram discernir o que mais ninguém conseguiu ver: a vida para além do défice. Chama-se FMI.

Pensamento da tarde:

"Temos das elites políticas e económicas mais estúpidas e incapazes da Europa. Sempre foi esse o nosso drama. Não mudou nada."


Pensamento do dia:

Em Democracia - e isto é o que faz da Democracia o menos mau dos sistemas de governo - até um perfeito idiota tem direito a ter e a expressar a sua opinião, por cretina que seja. O maior problema da Democracia é quando os idiotas estão em maioria.

Tuesday, April 5, 2011

E isto não fará algum sentido?


Nem sempre concordo com o que o Daniel Oliveira escreve. Mas chegámos a um ponto em que não há "mas"; vamos pagar o quê e porquê? Isto é o que não nos é dito. A falência de um banco é impensável? O Barings não fechou a porta? O mundo acabou? Nem por isso. 
Passo a transcrever o artigo na íntegra:


"Depois das aventuras na bolha imobiliária e da crise do subprime, as empresas financeiras ficaram à beira do colapso. Para pagar as suas irresponsabilidades os Estados foram chamados a intervir. A primeira ajuda fez-se através da nacionalização do prejuízo. A Irlanda foi mesmo obrigada a aceitar ajuda externa e a consequente destruição da sua economia para impedir que a falência dos bancos nacionais espalhasse o pânico na city londrina. Em Portugal, a nacionalização do BPN fez-se de forma cirurgica. O Estado ficou com os buraco e, generoso, deixou o que valia alguma coisa - a SLN - nas mãos dos acionistas.


Quem esperava que, depois disto, os responsáveis fossem punidos rapidamente percebeu que não estavamos a reformar um sistema que põe as vidas de milhões de pessoas à mercê da ganância de jogadores. Estavamos a salvar esse sistema.


Salvo o que estava prestes a falir com os dinheiros dos contribuintes, ainda faltava ir buscar o resto ao pote público. Começou então o ataque às dívidas soberanas. Aproveitando os absurdos institucionais europeus e a certeza de que na Europa cada um trataria apenas de si, as economias mais frágeis do euro foram a vítima preferencial. O que não foi sacado através das ajudas públicas foi-se buscar através de juros usurários. Basicamente, as economias mais frágeis passaram a trabalhar para pagar uma mesada à banca, pedindo emprestado para pagar os juros. E quanto mais pedem mais os juros aumentam, numa espiral que só acabará quando todo o sangue for sugado.


Tal como aconteceu com subprime, as agência de notação têm um papel central no assalto. Se antes sobrevalorizavam lixo, agora sobrevalorizam o risco. A pressão política para o pedido de "ajuda" externa não é mais do que o apelo para que campangas venham buscar o dinheiro à força. E a extorsão faz-se à custa do Estado Social. O dinheiro que os Estados gastam em saúde, educação, pensões e serviços públicos tem de ser transferido para pagar juros impossíveis. Trata-se de uma transferência de recursos públicos que ainda não acabou. Ela chegará ao fim com a destruição do Estado Social. A esse processo dá-se o pomposo nome de "reformas estruturais".


Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha estão a ser abusados por um novo tipo de máfia que, na ausência de poderes públicos e de políticos corajosos, deixam um rasto de destruição por onde passam. Resta às vítimas três possibilidades: ou entregam tudo o que têm, ou pedem proteção aos mafiosos para que o roubo se faça de forma mais ou menos ordenada ou dão, em conjunto, um murro na mesa.


A solução começa com duas palavras: "não pagamos". Quando elas forem ditas, em conjunto, por estes quatro países, a Alemanha e a União Europeia mudam, em apenas um minuto, de atitude. É provável que os contribuintes alemães não estejam dispostos a pagar as dividas dos outros. O que eles não sabem é que, quando participam na "ajuda" aos países periféricos, estão a pagar o bailout da banca alemã. Ou seja, estão a pagar a salvação da sua própria economia.


Só no dia em que estes países disserem que, nestas condições, não dão nem mais um tostão para este peditório se começará a discutir a reestruturação da dívida. Não se trata de um favor. Trata-se de pagar o que se deve em condições aceitáveis. Trata-se de um ato de justiça. Pagar com juros decentes e num tempo praticável.


Quando quiseram obrigar a Irlanda a subir o seu IRC - bem abaixo da média europeia - ela fez esta ameaça. O recuo europeu foi imediato. Tivessem os governantes irlandeses tanta coragem para defender os direitos sociais como tiveram para defender o seu dumping fiscal e os seus concidadãos estariam hoje bem melhor.


A escolha que estes Estados têm de fazer é simples mas arriscada. Simples porque resulta de uma revolta legitima: não temos de pagar, com o nosso trabalho, através de juros impensáveis, as irresponsabilidades de quem andou a brincar com o fogo. Arriscada porque vão continuar, como qualquer Estado, a precisar de financiamento. Mas é a única opção: obrigar a Europa a defender os Estados que aceitaram entrar no euro. Nem que seja pela ameaça. Ou isto, ou a destuição por décadas de várias economias."




Daqui.